retomada do compromisso social freireano em diálogo com Susana Copertari, e síntese pós-humanista
em torno da assemblagem surdo-ciborgue.
Compreender a IAG como objeto pedagógico exige, em primeiro lugar, desnaturalizar o
discurso técnico que a envolve. Quando Bender, Gebru, McMillan-Major e Shmitchell (2021)
cunharam, em intervenção seminal, a expressão papagaios estocásticos, o que estava em jogo era uma
denúncia: os sistemas que aparentam compreender e produzir sentido operam, na verdade, por
correlação estatística sobre corpora cujas decisões de inclusão e exclusão foram tomadas, em sua
grande maioria, sem participação das comunidades cujas vidas são reformatadas por eles. A escala dos
modelos, longe de ser sinônimo de qualidade, amplifica simultaneamente o desempenho aparente e os
danos potenciais.
Crawford (2021), em Atlas of AI, demonstra que a IA não é fenômeno virtual: ela é processo
de extração material que mobiliza terras raras, água potável, trabalho humano precarizado para
rotulagem de dados, e regime de captura informacional sem precedentes. Couldry e Mejias (2019)
deram a essa configuração o nome de colonialismo de dados. A figura é teoricamente fecunda porque
desloca a análise da IA do registro técnico para o registro histórico-político. Atabekova e colaboradores
(2026) atualizam essa análise para o terreno educativo, propondo o conceito de dependência
algorítmica para nomear a situação de universidades e sistemas educativos do Sul Global frente à
infraestrutura proprietária de IA.
Há, contudo, uma dimensão sub-tematizada que constitui, neste ensaio, o eixo singular do
diagnóstico. Os grandes modelos de linguagem operam sobre uma hierarquia implícita das modalidades
semióticas, na qual a oralidade transcrita ocupa o vértice. Bauman (2008), retomando a crítica
derridiana ao fonocentrismo da metafísica ocidental, demonstrou que essa hierarquia não é nova:
atravessa a filosofia da linguagem desde Platão. O que é novo é a sua codificação técnica em
infraestrutura planetária que, treinada em texto derivado de oralidade alfabética, reduz a Libras, a LSA
e outras línguas de sinais a objetos exóticos de tradução ocasional. A IAG, em seu desenho atual, é
uma máquina que ouve mal e que, por isso mesmo, vê mal aquilo que não pode ser reduzido a texto
fonético. A consequência educativa é nítida: estudantes surdos em escolas brasileiras e argentinas
encontram-se diante de ferramentas que pressupõem, como condição de uso, a sua adaptação prévia a
uma modalidade que não é a sua (Adamo-Villani et al., 2024; 2025; 2026). Selwyn (2024) identifica
quatro limites estruturais da IA em educação: a impossibilidade de modelar estatisticamente processos
educativos complexos, o risco de perpetuar danos sociais para estudantes minorizados, as perdas
decorrentes da reorganização do ensino em formatos legíveis para máquinas, e o custo ecológico-
ambiental da infraestrutura.
A obra de Paulo Freire é, neste ensaio, mais do que referência reverente. Constitui o operador
teórico-prático fundamental para passar da denúncia à proposição. Em Pedagogia do oprimido (Freire,
1987), Pedagogia da autonomia (Freire, 1996) e Pedagogia da indignação (Freire, 2000), Freire
desenvolveu um conjunto articulado de categorias cujo poder analítico, longe de ser corroído pelo
tempo, encontra na era da IAG sua mais inesperada confirmação. Cinco dessas categorias merecem
atualização: dialogicidade, conscientização, situação-limite, ato-limite e, sobretudo, inédito viável.
A dialogicidade é o princípio segundo o qual o ato educativo se realiza não como transferência
de conhecimento de quem sabe para quem não sabe, mas como encontro mediatizado pelo mundo
entre sujeitos pronunciantes (Freire, 1987, p. 78). Aplicada à IAG, essa categoria desautoriza qualquer
concepção da máquina como oráculo. Wegerif (2026) propõe um fundamento teórico dialógico para
integrar a IAG ao desenho pedagógico e converge, sem citá-lo nominalmente, com a tradição freireana.
A conscientização designa o processo pelo qual o sujeito toma consciência das estruturas opressoras
que conformam a sua existência (Freire, 1987). Aouni e colaboradores (2025) mobilizam
explicitamente a conscientização freireana ao lado da teoria sociocultural vigotskiana. As categorias de
situação-limite e ato-limite designam, respectivamente, o conjunto de obstáculos percebidos como
barreiras intransponíveis e os atos pelos quais essas barreiras são rompidas mediante consciência crítica.
É aqui que a categoria-chave do inédito viável encontra a sua mais potente aplicação. O inédito
viável é o que ainda não foi, mas pode ser, e cuja realização depende exatamente da consciência crítica
das comunidades sobre a sua situação-limite (Freire, 1987). A IAG não é, em si, nem opressão nem
libertação. É situação-objetiva-problemática frente à qual diferentes atos-limite são possíveis. A
Revista Científica Educ@ção v.12● n.18● edição especial/2026.