ENTRE ALGORITMOS E HUMANISMO: ENSAIO FREIREANO  
PÓS-HUMANISTA SOBRE IA E COMPROMISSO SOCIAL  
Resumo  
A emergência da Inteligência Artificial Generativa em ambientes educativos brasileiros e argentinos  
reabre, em chave inédita, a tensão histórica entre técnica e humanização. Este ensaio teórico-crítico,  
alinhado ao dossiê Entre algoritmos e humanismo, articula a tradição freireana do compromisso social,  
a crítica algorítmica contemporânea e a renovação pós-humanista para enfrentar essa tensão. O  
objetivo é construir um framework conceitual original, denominado PHARE (Pedagogia  
Humanizadora para IA Reflexiva e Emancipatória), aplicável à formação de professores e à prática  
docente no espaço ibero-americano. A abordagem metodológica é hermenêutico-crítica, em três  
movimentos: diagnóstico da racionalidade algorítmica, retomada freireana do conceito de inédito viável  
em diálogo com Susana Copertari, e síntese pós-humanista em torno da figura conceitual da  
assemblagem surdo-ciborgue, formulada para situar o corpo surdo como laboratório privilegiado da  
ética algorítmica. O framework PHARE organiza-se em cinco princípios orientadores: dialogicidade  
algorítmica, transparência epistêmica, agência distribuída, compromisso decolonial e horizonte  
emancipatório com acessibilidade radical. Conclui-se que a pedagogia ibero-americana da IA exige,  
simultaneamente, denúncia das configurações coloniais da técnica e invenção, no horizonte do inédito  
viável, de modos de apropriação que honrem o compromisso histórico da educação latino-americana  
com os povos, com as línguas e com os corpos historicamente marginalizados pelo fonocentrismo  
algorítmico.  
Palavras-chave: inteligência artificial generativa; pedagogia crítica; compromisso social; acessibilidade;  
formação docente.  
BETWEEN ALGORITHMS AND HUMANISM: A FREIREAN  
POSTHUMANIST ESSAY ON AI AND SOCIAL COMMITMENT  
Abstract  
The massive emergence of Generative Artificial Intelligence in Brazilian and Argentinian educational  
settings reopens, in an unprecedented way, the historical tension between technique and humanization.  
This theoretical-critical essay, aligned with the dossier Between Algorithms and Humanism, articulates  
the Freirean tradition of social commitment, contemporary algorithmic critique and posthumanist  
renewal to address this tension. The aim is to construct an original conceptual framework, named  
PHARE (Humanizing Pedagogy for Reflective and Emancipatory AI), applicable to teacher education  
and pedagogical practice in the Ibero-American space. The methodological approach is hermeneutic-  
critical, organized in three movements: diagnosis of algorithmic rationality, Freirean recovery of the  
concept of viable unprecedented in dialogue with Susana Copertari, and posthumanist synthesis  
around the conceptual figure of the deaf-cyborg assemblage, formulated to situate the deaf body as a  
privileged laboratory of algorithmic ethics. The PHARE framework comprises five guiding principles:  
algorithmic dialogicity, epistemic transparency, distributed agency, decolonial commitment, and  
emancipatory horizon with radical accessibility. We conclude that Ibero-American pedagogy of AI  
requires both the denunciation of the colonial configurations of technique and the invention, in the  
horizon of the viable unprecedented, of modes of appropriation that honor Latin American education  
historic commitment to peoples, languages and bodies historically silenced by algorithmic  
phonocentrism.  
Keywords: generative artificial intelligence; critical pedagogy; social commitment; accessibility; teacher  
education.  
Revista Científica Educ@ção v.12● n.18edição especial/2026.  
ENTRE ALGORITMOS Y HUMANISMO: ENSAYO FREIREANO  
POSTHUMANISTA SOBRE IA Y COMPROMISO SOCIAL  
Resumen  
La emergencia masiva de la Inteligencia Artificial Generativa en ambientes educativos brasileños y  
argentinos reabre, en clave inédita, la tensión histórica entre técnica y humanización. Este ensayo  
teórico-crítico, alineado al dossier Entre algoritmos y humanismo, articula la tradición freireana del  
compromiso social, la crítica algorítmica contemporánea y la renovación posthumanista para enfrentar  
esta tensión. El objetivo es construir un marco conceptual original, denominado PHARE (Pedagogía  
Humanizadora para IA Reflexiva y Emancipadora), aplicable a la formación docente y a la práctica  
pedagógica en el espacio iberoamericano. La aproximación metodológica es hermenéutico-crítica, en  
tres movimientos: diagnóstico de la racionalidad algorítmica, retomada freireana del concepto de  
inédito viable en diálogo con Susana Copertari, y síntesis posthumanista en torno a la figura conceptual  
de la ensambladura sordo-ciborgue, formulada para situar el cuerpo sordo como laboratorio  
privilegiado de la ética algorítmica. El marco PHARE se organiza en cinco principios orientadores:  
dialogicidad algorítmica, transparencia epistémica, agencia distribuida, compromiso decolonial y  
horizonte emancipador con accesibilidad radical. Se concluye que la pedagogía iberoamericana de la  
IA exige, simultáneamente, denuncia de las configuraciones coloniales de la técnica e invención, en el  
horizonte del inédito viable, de modos de apropiación que honren el compromiso histórico de la  
educación latinoamericana con los pueblos, las lenguas y los cuerpos históricamente silenciados por el  
fonocentrismo algorítmico.  
Palabras clave: inteligencia artificial generativa; pedagogía crítica; compromiso social; accesibilidad;  
formación docente.  
INTRODUÇÃO  
A emergência massiva da Inteligência Artificial Generativa (IAG) em ambientes escolares,  
universitários e de Educação a Distância (EaD) reabre, em chave inédita, uma das mais antigas tensões  
da pedagogia moderna: a relação entre técnica e humanização. Em pouco mais de três anos, sistemas  
como GPT, Gemini, Claude, Llama e DeepSeek deixaram de ser curiosidade laboratorial para  
constituir infraestrutura cotidiana do trabalho docente, da escrita estudantil, da avaliação da  
aprendizagem e do design instrucional (Selwyn, 2022; Selwyn, 2024; Wegerif, 2026). A escola, a  
universidade e os ambientes virtuais de aprendizagem foram interpelados, sem mediação consultiva  
prévia, por uma camada algorítmica que reorganiza fluxos de leitura, escrita, pesquisa e julgamento.  
Essa reorganização não é apenas tecnológica; é, por dentro, uma operação epistemológica, política e  
ontológica que redefine quem fala, quem é ouvido, quem aprende, quem ensina e o que conta como  
conhecimento legítimo (Crawford, 2021; Bender et al., 2021).  
A formulação do dossiê Entre algoritmos e humanismo nomeia, com precisão, esse impasse.  
A conjunção entre dois termos aparentemente opostos não é gratuita: ela inscreve o problema na  
própria gramática da tradição educativa latino-americana, que jamais separou técnica e projeto de  
mundo. Quando Paulo Freire afirmava, em Pedagogia da autonomia, que ensinar exige a convicção de  
que a mudança é possível (Freire, 1996), ele anunciava uma posição que hoje se torna inegociável diante  
da IAG. A tecnologia, como qualquer outra mediação humana, é território de disputa pedagógica, ética  
e política. Não há uso neutro de um sistema treinado em corpora majoritariamente anglófonos,  
ocidentais e fonocêntricos. Não há aplicação pedagógica inocente de uma camada que reproduz, em  
escala industrial, vieses raciais, de gênero, de classe, de língua e de deficiência (Noble, 2018; O'Neil,  
2016; Eubanks, 2018; D'Ignazio; Klein, 2020).  
A literatura crítica acumulou, na última década, evidências robustas de que a IA configura uma  
economia política específica: extração de dados, concentração corporativa, dependência infraestrutural  
do Sul Global em relação a um pequeno número de empresas do Norte (Crawford, 2021; Couldry;  
Mejias, 2019; Atabekova et al., 2026). Essa configuração foi nomeada como colonialismo de dados  
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(Couldry; Mejias, 2019) e como nova matriz colonial do poder algorítmico, na qual universidades e  
sistemas educativos do Sul tornam-se simultaneamente fornecedores de dados e consumidores cativos  
de plataformas proprietárias (Atabekova et al., 2026). O Brasil e a Argentina ocupam, nessa cartografia,  
posição dupla: são produtores de pensamento pedagógico crítico de projeção internacional e ambientes  
cuja infraestrutura digital depende, quase integralmente, de tecnologias concebidas fora de seus  
contextos culturais, linguísticos e epistemológicos.  
A esse diagnóstico estrutural soma-se uma camada singular de problematização, que constitui  
o eixo deste artigo. A IAG, em seu desenho atual, é uma máquina fonocêntrica. Os modelos de  
linguagem de grande escala foram treinados preponderantemente em texto escrito derivado da  
oralidade ocidental, em corpora indexados por sistemas de tokenização que privilegiam línguas  
alfabéticas, e em interfaces que pressupõem o input textual ou vocal como modalidade universal de  
produção de sentido (Bender et al., 2021; Bauman, 2008). Para a comunidade surda, para falantes de  
línguas de sinais como a Libras e a Lengua de Señas Argentina (LSA), e para qualquer comunidade cuja  
produção semiótica seja prioritariamente visuoespacial, essa configuração não é detalhe técnico. Ela  
inaugura, em escala planetária, aquilo que se pode designar como biopolítica algorítmica do  
silenciamento (Adamo-Villani et al., 2024; 2025; 2026).  
É esta lacuna que o presente ensaio se propõe a enfrentar. O problema de pesquisa pode ser  
formulado nos seguintes termos: é possível articular o pensamento freireano (compromisso social,  
dialogicidade, conscientização) com a crítica pós-humanista contemporânea (agência distribuída,  
ontologia relacional, recusa do humanismo antropocêntrico) para fundar uma pedagogia crítica da IAG  
capaz de transcender o falso dilema entre tecnofobia e tecnoeuforia, oferecendo princípios  
orientadores para a docência em contextos ibero-americanos, com atenção explícita à acessibilidade  
dos corpos historicamente marginalizados pelo fonocentrismo algorítmico?  
O objetivo geral é construir e apresentar um framework conceitual original, denominado  
PHARE (Pedagogia Humanizadora para IA Reflexiva e Emancipatória), que opere essa síntese em  
cinco princípios orientadores para a prática docente, com aplicação prioritária à EaD ibero-americana  
e à formação de professores para a educação inclusiva. Os objetivos específicos são: diagnosticar a  
racionalidade algorítmica que estrutura, hoje, a IAG em educação, identificando suas dimensões  
extrativas, fonocêntricas e coloniais; retomar e atualizar, em diálogo com Copertari e a tradição  
argentina, o conceito freireano de inédito viável como princípio operatório de apropriação crítica das  
tecnologias; articular a crítica algorítmica e a renovação pós-humanista em torno da figura conceitual  
da assemblagem surdo-ciborgue; e propor o framework PHARE, com seus cinco princípios e seu  
horizonte emancipatório.  
A relevância acadêmica e social do estudo é tripla. Primeiro, adensa o debate ibero-americano  
sobre IA e educação, ainda predominantemente importador de categorias produzidas no Norte Global.  
Segundo, oferece à formação de professores, no Brasil e na Argentina, um instrumento operatório que  
articula tradição crítica latino-americana e crítica pós-humanista contemporânea. Terceiro, recoloca os  
corpos surdos e os corpos linguísticos minoritários no centro de uma discussão que tem sido conduzida  
como se a humanidade abstrata da IAG fosse uma humanidade universal. Como sublinhou Freire  
(1996, p. 39), ensinar exige rigorosidade metódica, e essa rigorosidade, na era algorítmica, é  
incompatível com a aceitação passiva de configurações técnicas que silenciam parcelas inteiras do  
humano.  
O texto está organizado em quatro seções, para além desta Introdução: a Fundamentação  
Teórica, com os três movimentos analíticos do ensaio; a Metodologia, com os procedimentos  
hermenêuticos e a análise documental dos marcos normativos brasileiro e argentino; os Resultados e  
Discussão, com a apresentação do framework PHARE e suas implicações; e as Considerações Finais.  
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA  
A fundamentação teórica deste ensaio organiza-se em três movimentos sucessivos, que  
constituem também a arquitetura argumentativa do trabalho: diagnóstico da racionalidade algorítmica,  
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retomada do compromisso social freireano em diálogo com Susana Copertari, e síntese pós-humanista  
em torno da assemblagem surdo-ciborgue.  
Compreender a IAG como objeto pedagógico exige, em primeiro lugar, desnaturalizar o  
discurso técnico que a envolve. Quando Bender, Gebru, McMillan-Major e Shmitchell (2021)  
cunharam, em intervenção seminal, a expressão papagaios estocásticos, o que estava em jogo era uma  
denúncia: os sistemas que aparentam compreender e produzir sentido operam, na verdade, por  
correlação estatística sobre corpora cujas decisões de inclusão e exclusão foram tomadas, em sua  
grande maioria, sem participação das comunidades cujas vidas são reformatadas por eles. A escala dos  
modelos, longe de ser sinônimo de qualidade, amplifica simultaneamente o desempenho aparente e os  
danos potenciais.  
Crawford (2021), em Atlas of AI, demonstra que a IA não é fenômeno virtual: ela é processo  
de extração material que mobiliza terras raras, água potável, trabalho humano precarizado para  
rotulagem de dados, e regime de captura informacional sem precedentes. Couldry e Mejias (2019)  
deram a essa configuração o nome de colonialismo de dados. A figura é teoricamente fecunda porque  
desloca a análise da IA do registro técnico para o registro histórico-político. Atabekova e colaboradores  
(2026) atualizam essa análise para o terreno educativo, propondo o conceito de dependência  
algorítmica para nomear a situação de universidades e sistemas educativos do Sul Global frente à  
infraestrutura proprietária de IA.  
Há, contudo, uma dimensão sub-tematizada que constitui, neste ensaio, o eixo singular do  
diagnóstico. Os grandes modelos de linguagem operam sobre uma hierarquia implícita das modalidades  
semióticas, na qual a oralidade transcrita ocupa o vértice. Bauman (2008), retomando a crítica  
derridiana ao fonocentrismo da metafísica ocidental, demonstrou que essa hierarquia não é nova:  
atravessa a filosofia da linguagem desde Platão. O que é novo é a sua codificação técnica em  
infraestrutura planetária que, treinada em texto derivado de oralidade alfabética, reduz a Libras, a LSA  
e outras línguas de sinais a objetos exóticos de tradução ocasional. A IAG, em seu desenho atual, é  
uma máquina que ouve mal e que, por isso mesmo, vê mal aquilo que não pode ser reduzido a texto  
fonético. A consequência educativa é nítida: estudantes surdos em escolas brasileiras e argentinas  
encontram-se diante de ferramentas que pressupõem, como condição de uso, a sua adaptação prévia a  
uma modalidade que não é a sua (Adamo-Villani et al., 2024; 2025; 2026). Selwyn (2024) identifica  
quatro limites estruturais da IA em educação: a impossibilidade de modelar estatisticamente processos  
educativos complexos, o risco de perpetuar danos sociais para estudantes minorizados, as perdas  
decorrentes da reorganização do ensino em formatos legíveis para máquinas, e o custo ecológico-  
ambiental da infraestrutura.  
A obra de Paulo Freire é, neste ensaio, mais do que referência reverente. Constitui o operador  
teórico-prático fundamental para passar da denúncia à proposição. Em Pedagogia do oprimido (Freire,  
1987), Pedagogia da autonomia (Freire, 1996) e Pedagogia da indignação (Freire, 2000), Freire  
desenvolveu um conjunto articulado de categorias cujo poder analítico, longe de ser corroído pelo  
tempo, encontra na era da IAG sua mais inesperada confirmação. Cinco dessas categorias merecem  
atualização: dialogicidade, conscientização, situação-limite, ato-limite e, sobretudo, inédito viável.  
A dialogicidade é o princípio segundo o qual o ato educativo se realiza não como transferência  
de conhecimento de quem sabe para quem não sabe, mas como encontro mediatizado pelo mundo  
entre sujeitos pronunciantes (Freire, 1987, p. 78). Aplicada à IAG, essa categoria desautoriza qualquer  
concepção da máquina como oráculo. Wegerif (2026) propõe um fundamento teórico dialógico para  
integrar a IAG ao desenho pedagógico e converge, sem citá-lo nominalmente, com a tradição freireana.  
A conscientização designa o processo pelo qual o sujeito toma consciência das estruturas opressoras  
que conformam a sua existência (Freire, 1987). Aouni e colaboradores (2025) mobilizam  
explicitamente a conscientização freireana ao lado da teoria sociocultural vigotskiana. As categorias de  
situação-limite e ato-limite designam, respectivamente, o conjunto de obstáculos percebidos como  
barreiras intransponíveis e os atos pelos quais essas barreiras são rompidas mediante consciência crítica.  
É aqui que a categoria-chave do inédito viável encontra a sua mais potente aplicação. O inédito  
viável é o que ainda não foi, mas pode ser, e cuja realização depende exatamente da consciência crítica  
das comunidades sobre a sua situação-limite (Freire, 1987). A IAG não é, em si, nem opressão nem  
libertação. É situação-objetiva-problemática frente à qual diferentes atos-limite são possíveis. A  
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pedagogia do inédito viável aplicada à IAG significa que, ao invés de aceitar passivamente o  
tecnodeterminismo ou de recusar a tecnologia em bloco, os educadores brasileiros e argentinos podem  
subverter o uso hegemônico desses sistemas, construindo modos de apropriação que coloquem a  
técnica a serviço de projetos comprometidos com a justiça social, a interculturalidade e a acessibilidade  
radical.  
Essa formulação dialoga diretamente com a tradição argentina, na qual a obra de Susana  
Copertari ocupa posição central. Copertari, Sgreccia e Fantasía (2014) demonstraram, em estudos sobre  
os pós-graduados da Universidad Nacional de Rosario, que a EaD na América Latina jamais foi mera  
transposição técnica do ensino presencial, mas espaço de construção de pedagogias situadas que  
enfrentam, simultaneamente, as desigualdades regionais e a necessidade de formação docente  
continuada. Copertari e Sgreccia (2011) articularam a virtualização universitária ao horizonte mais  
amplo de democratização do acesso ao conhecimento. Essa filiação ibero-americana é, neste artigo,  
escolha deliberada: o pensamento crítico sobre IAG e educação, para ser efetivamente situado, precisa  
abandonar a postura de mero importador de categorias produzidas no Norte e reconectar-se às suas  
próprias tradições.  
Há, contudo, um limite interno à tradição freireana que o ensaio precisa explicitar. A obra de  
Freire, escrita antes da consolidação da revolução digital, supõe um sujeito pedagógico cuja relação  
com a técnica é majoritariamente instrumental. A IAG desafia essa concepção: não é instrumento que  
o sujeito utiliza, mas mediação que reconfigura, em cada interação, o próprio sujeito que a utiliza. É  
para enfrentar esse limite que o ensaio convoca, no terceiro movimento, a renovação pós-humanista.  
A tradição pós-humanista contemporânea, desenvolvida por Donna Haraway (1991; 2016),  
Rosi Braidotti (2025) e Yuk Hui (2016; 2024), oferece categorias particularmente fecundas para pensar  
a relação entre humanos e máquinas inteligentes. Haraway (1991) demonstrou que a oposição entre  
humano puro e máquina pura é uma ficção ideológica e que o sujeito contemporâneo é, sempre já,  
atravessado por próteses técnicas. Braidotti (2025), no Journal of Bioethical Inquiry, propõe uma ética  
que rejeite simultaneamente o humanismo antropocêntrico clássico e o pós-humanismo niilista que  
celebra a dissolução do humano nos fluxos algorítmicos. Hui (2016; 2024), com o conceito de  
cosmotécnica, denuncia a falsa universalidade da técnica ocidental e propõe que existem múltiplas  
técnicas, ancoradas em cosmologias culturais distintas, cuja coexistência plural é condição para a  
sobrevivência da pluralidade epistêmica do planeta.  
A síntese desses três aportes encontra, neste ensaio, sua formulação mais singular na figura  
conceitual da assemblagem surdo-ciborgue. O termo assemblagem é tomado de Deleuze e Guattari e  
tem sido mobilizado por autores brasileiros contemporâneos, como Buzato (2023), para pensar a  
relação entre IAG e educação na chave do simulacro e da agência distribuída. A assemblagem surdo-  
ciborgue designa a coprodução semiótica entre o estudante surdo, sua língua de sinais, suas tecnologias  
assistivas, suas próteses comunicacionais e os sistemas algorítmicos com os quais hoje precisa interagir.  
Essa assemblagem não é metafórica: existe materialmente sempre que um estudante surdo brasileiro  
abre um sistema generativo para tirar dúvida sobre conteúdo escolar, que um estudante surdo argentino  
utiliza tradução automática para acessar texto acadêmico, que um intérprete de Libras recorre à IAG  
para preparar aulas. A pergunta filosófica e política é: qual a configuração ética dessa assemblagem? É  
uma assemblagem que reconhece, traduz, dialoga e amplia o sujeito surdo, ou é uma assemblagem que  
silencia, normaliza, homogeneíza e reduz?  
A resposta passa por confrontar diretamente o fonocentrismo algorítmico. O fonocentrismo,  
conceito derridiano retomado por Bauman (2008), nomeia a hierarquia que coloca a fala e a oralidade  
como modalidade originária e privilegiada da linguagem, relegando a escrita, e mais ainda os sinais  
visuoespaciais, a derivações secundárias. Os modelos de linguagem incorporam essa hierarquia em sua  
arquitetura. A consequência, para o estudante surdo, é que a IAG opera, por padrão, como dispositivo  
de biopolítica algorítmica do silenciamento. Skliar (1998) já havia denunciado, há mais de duas décadas,  
como o fonocentrismo escolar produz, sistemicamente, uma surdez como falta. A IAG generaliza esse  
mecanismo em escala planetária. A ética pós-humanista braidottiana, conjugada à dialogicidade  
freireana e à cosmotécnica de Hui, oferece o vocabulário necessário para pensar outra configuração da  
assemblagem: não uma que apague o sinal e exija a sua tradução prévia ao texto fonético, mas uma que  
reconheça a visuoespacialidade como modalidade legítima da linguagem.  
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METODOLOGIA  
Este artigo configura-se como ensaio teórico-crítico de natureza qualitativa, com finalidade  
exploratória e propositiva. A escolha do ensaio como gênero metodológico se ancora em Adorno  
(1986), que defendeu o ensaio como gênero filosófico-pedagógico capaz de pensar contra o sistema, e  
em Larrosa (2002), que sublinhou que o ensaio é o gênero pelo qual a experiência intelectual se  
converte em saber compartilhável. Em momento histórico no qual a IAG interpela a educação em  
ritmo mais acelerado do que a sua capacidade de avaliação empírica, o ensaio teórico-crítico é  
metodologicamente adequado para produzir as sínteses conceituais necessárias à orientação da prática  
docente.  
A abordagem é hermenêutico-crítica, com tripla camada interpretativa. A primeira camada é  
diagnóstica: ler a racionalidade algorítmica que estrutura a IAG em educação. A segunda é recuperativa:  
retomar e atualizar, em diálogo com Copertari e a tradição argentina, o pensamento freireano sobre  
compromisso social, dialogicidade e inédito viável. A terceira é propositiva: construir, mediante síntese  
das duas anteriores, o framework PHARE como instrumento prescritivo.  
A pesquisa é teórica e bibliográfica, com componente complementar de análise documental  
hermenêutica. A revisão crítica de literatura mobilizou cinco eixos bibliográficos: a crítica algorítmica  
contemporânea (Bender et al., 2021; Crawford, 2021; Couldry; Mejias, 2019; Noble, 2018; O'Neil,  
2016; Eubanks, 2018; D'Ignazio; Klein, 2020); a tradição freireana e a pedagogia crítica latino-  
americana (Freire, 1987; 1996; 2000; Giroux, 2011; Santos, 2018; Candau, 2008; Skliar, 1998); a  
renovação pós-humanista (Haraway, 1991; 2016; Braidotti, 2025; Hui, 2016; 2024; Stiegler, 1998); a  
literatura específica sobre IAG e educação 2022-2026 (Selwyn, 2022; 2024; Wegerif, 2026; Suopajärvi  
et al., 2025; Aouni et al., 2025; Anders et al., 2025; Jandrić et al., 2025; Atabekova et al., 2026;  
Antonescu, 2025; Butler-Rees, 2025); e a literatura ibero-americana (Buzato, 2023; Copertari; Sgreccia,  
2011; Copertari; Sgreccia; Fantasía, 2014; Carneiro et al., 2025; Adamo-Villani et al., 2024; 2025; 2026).  
Todas as obras foram acessadas em versões originais ou em traduções autorizadas, e suas referências  
verificadas mediante DOI ou URL institucional.  
A análise documental complementar incidiu sobre marcos normativos brasileiro e argentino  
relativos à IA, à EaD e à educação inclusiva. No caso brasileiro, foram considerados a Lei de Diretrizes  
e Bases da Educação Nacional (Lei n. 9.394, de 1996), a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com  
Deficiência (Lei n. 13.146, de 2015), a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da  
Educação Inclusiva (2008), o Decreto n. 9.057, de 2017, e os documentos preparatórios da Estratégia  
Brasileira de Inteligência Artificial. No caso argentino, foram considerados a Ley de Educación  
Nacional (Ley 26.206, de 2006), a Ley 26.378, de 2008, sobre a Convención sobre los Derechos de las  
Personas con Discapacidad, e o Plan Nacional de Inteligencia Artificial. A análise seguiu os  
procedimentos hermenêuticos descritos por Cellard (2012).  
A construção do framework PHARE seguiu cinco procedimentos sucessivos. Primeiro,  
delimitação semântica da sigla, que designa Pedagogia Humanizadora para IA Reflexiva e  
Emancipatória. A escolha do termo francês phare, que significa farol, opera duplo gesto evocativo:  
remete à tradição iluminista da educação como condução à autonomia e designa precisamente o que  
falta à racionalidade algorítmica opaca, a saber, uma luz que oriente e que sinalize perigos. Segundo  
delineamento, mediante triangulação entre as três tradições teóricas mobilizadas, dos cinco princípios.  
Terceiro, operacionalização de cada princípio em pelo menos uma orientação prática. Quarto,  
confronto do framework com as quatro limitações estruturais identificadas por Selwyn (2024). Quinto,  
visualização em diagrama conceitual apresentado na seção seguinte.  
A análise foi conduzida com vigilância epistemológica quanto a três riscos. O risco do  
tecnodeterminismo foi enfrentado mediante mobilização do inédito viável freireano. O risco da  
tecnofobia foi enfrentado mediante mobilização da ética pós-humanista braidottiana. O risco do  
tecnouniversalismo foi enfrentado mediante diálogo com a tradição ibero-americana e com a  
cosmotécnica de Hui. Como ensaio teórico que não envolve coleta de dados primários, o presente  
trabalho não requereu aprovação por Comitê de Ética em Pesquisa.  
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RESULTADOS E DISCUSSÃO  
Esta seção apresenta o principal resultado do estudo, o framework conceitual PHARE, e  
discute as suas implicações para a docência ibero-americana. A arquitetura geral do framework é  
apresentada na Figura 1, e seus cinco princípios são detalhados em seguida.  
O framework PHARE articula, em estrutura unificada, a crítica algorítmica contemporânea, a  
tradição freireana do compromisso social e a renovação pós-humanista. Sua arquitetura organiza-se  
em torno de cinco princípios orientadores, cada um deles tributário simultaneamente das três tradições  
mobilizadas, e operacionalizáveis em práticas docentes concretas. A Figura 1 sintetiza, em  
representação visual, a arquitetura do framework, com um núcleo central no qual se inscreve o  
acrônimo PHARE e cinco vetores que dele irradiam, cada um nomeado por um dos princípios. O  
movimento é deliberadamente centrífugo: os princípios não estão hierarquizados, mas constituem um  
sistema relacional. A coerência interna é dada por três operadores transversais: o operador freireano,  
segundo o qual cada princípio incorpora o compromisso social como horizonte normativo; o operador  
pós-humanista, segundo o qual cada princípio reconhece a agência distribuída entre humanos e  
máquinas; e o operador cosmotécnico, segundo o qual cada princípio é situado no contexto ibero-  
americano.  
Figura 1: Framework PHARE (Pedagogia Humanizadora para IA Reflexiva e Emancipatória).  
Fonte: elaboração do autor, 2026.  
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O primeiro princípio, dialogicidade algorítmica, estabelece que a IAG deve ser tratada não  
como oráculo, mas como interlocutor problemático. É tributário direto da concepção freireana de  
educação como diálogo (Freire, 1987), atualizada para a condição contemporânea em que o  
interlocutor inclui sistemas algorítmicos com aparência de autoridade epistêmica. Wegerif (2026)  
formulou esse princípio em sua proposta de fundamento dialógico para a integração da IAG ao  
desenho pedagógico, mostrando que a tecnologia só se torna pedagogicamente fecunda quando  
inserida em estruturas dialógicas que preservam a pluralidade das vozes. A operacionalização docente  
passa por quatro práticas: ensinar a interrogar sistematicamente o output do modelo; contrastar  
respostas geradas por diferentes modelos sobre o mesmo problema, evidenciando a inconsistência das  
produções; mobilizar o output como ponto de partida para investigação coletiva e não como  
conclusão; e incorporar momentos explícitos de meta-reflexão sobre a interação humano-máquina.  
O segundo princípio, transparência epistêmica, estabelece que toda intervenção educativa com  
IAG deve incorporar a interrogação sobre as condições de produção do conhecimento algorítmico.  
Trata-se da operacionalização pedagógica do que Bender e colaboradores (2021) denominaram a  
opacidade dos dados de treinamento. Selwyn (2024) sublinhou que essa opacidade não é falha técnica  
corrigível, mas característica estrutural da arquitetura comercial dos grandes modelos. A transparência  
epistêmica exige que o professor convoque os estudantes a perguntar, em cada uso, três questões  
freireanas reorientadas: quais vozes estão presentes nos dados que alimentaram esta resposta, quais  
vozes estão ausentes, e que efeito tem essa presença-ausência sobre o conhecimento produzido?  
Quando aplicadas a um sistema treinado majoritariamente em inglês, o exercício revela imediatamente  
a configuração colonial da infraestrutura algorítmica (Couldry; Mejias, 2019; Atabekova et al., 2026).  
O terceiro princípio, agência distribuída, incorpora a contribuição central da tradição pós-  
humanista. Haraway (1991) demonstrou que a oposição entre humano puro e máquina pura é uma  
ficção ideológica. Braidotti (2025) atualizou essa intuição para o contexto dos grandes modelos de  
linguagem, propondo que a autoria do texto, do código, da imagem produzida em interação com a  
IAG é, em rigor, uma autoria coproduzida. O reconhecimento da agência distribuída tem três  
consequências pedagógicas: exige reformulação das políticas institucionais sobre autoria e plágio, na  
qual a questão deixa de ser se o estudante usou a IAG e passa a ser como ele documentou e se  
apropriou da coautoria; exige práticas avaliativas que tornem visível o processo de coprodução, não  
apenas o produto final; e exige a formação de estudantes capazes de habitar criticamente a sua condição  
ciborgue (Antonescu, 2025; Butler-Rees, 2025).  
O quarto princípio, compromisso decolonial, é a operacionalização do compromisso social  
freireano na infraestrutura algorítmica concreta. Couldry e Mejias (2019), Crawford (2021) e Atabekova  
et al. (2026) demonstraram que a IAG é tecnologia colonial: extrai dados do Sul, processa-os no Norte,  
devolve produtos refinados ao Sul sob regime de licenciamento. O compromisso decolonial significa  
privilegiar, sempre que possível, modelos abertos ou desenvolvidos no Sul Global; corrigir, em cada  
interação, os silenciamentos de literatura e cultura ibero-americanas; usar a IAG para amplificar, e não  
substituir, as vozes da tradição crítica latino-americana; produzir, no próprio uso da ferramenta,  
materiais didáticos que enriqueçam a base de conhecimento regional. Aqui o inédito viável encontra  
sua maior potência: não é nem a recusa total da tecnologia nem a sua adoção acrítica, mas a sua  
subversão deliberada para promover justiça social, descolonização curricular e fortalecimento das  
tradições crítico-pedagógicas regionais. Copertari e Sgreccia (2011) já apontavam que a virtualização  
universitária na Argentina deveria ser pensada como projeto de democratização do conhecimento.  
O quinto princípio, horizonte emancipatório com acessibilidade radical, é o ponto de chegada  
do framework e o seu vetor mais singular. Estabelece que nenhuma pedagogia da IAG pode ser  
considerada emancipatória se deixar, atrás de si, os corpos historicamente marginalizados pelo  
fonocentrismo algorítmico. A operacionalização passa pela figura conceitual da assemblagem surdo-  
ciborgue. Reconhecer essa assemblagem implica três decisões práticas: recusar o uso de sistemas que  
reproduzem, sem mediação crítica, a hierarquia fonocêntrica; exigir, em todo desenvolvimento de  
plataformas educativas com IAG, a participação ativa de comunidades surdas, de educadores bilíngues  
e de pesquisadores em línguas de sinais; e mobilizar a IAG, sempre que possível, para amplificar e não  
para substituir a centralidade linguística da Libras e da LSA. Adamo-Villani et al. (2024) demonstraram  
que a inclusão de surdos mediada por IA só é eficaz quando o desenho do sistema parte das  
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comunidades surdas como sujeitos epistêmicos. A formulação acessibilidade radical distingue-se da  
acessibilidade adaptativa, que aceita a configuração hegemônica do sistema e adiciona, ao final, recursos  
pontuais. A acessibilidade radical exige que a pluralidade dos modos de produção semiótica esteja  
inscrita na arquitetura do sistema desde o seu desenho.  
O framework PHARE dialoga, criticamente, com a literatura recente sobre IAG e educação  
em quatro pontos. Em relação à literatura crítica anglófona representada por Selwyn (2022; 2024),  
Bender et al. (2021), Crawford (2021) e Couldry e Mejias (2019), o framework retém o diagnóstico  
estrutural mas se afasta da postura predominantemente denunciatória. A tradição freireana exige que a  
denúncia seja acompanhada pelo anúncio: identificar a opressão é apenas o primeiro momento. Em  
relação à literatura sobre pedagogia crítica e IAG (Wegerif, 2026; Aouni et al., 2025; Anders et al., 2025;  
Jandrić et al., 2025), o PHARE compartilha a inspiração freireana e dialógica, mas adiciona dois  
elementos sub-tematizados: a explicitação do compromisso decolonial e a centralidade da  
acessibilidade radical. Em relação à literatura pós-humanista (Braidotti, 2025; Haraway, 2016; Hui,  
2024), o PHARE incorpora a agência distribuída e a cosmotécnica, mas as articula com a tradição  
freireana, que tem dado atenção privilegiada à dimensão da injustiça social. Em relação à literatura  
ibero-americana (Buzato, 2023; Copertari, 2011; 2014; Carneiro et al., 2025; AUTOR, 2025; 2026), o  
framework oferece um aporte original ao constituir-se como instrumento prescritivo unificado.  
A discussão suscita três implicações teóricas e práticas. A pedagogia da IAG no Sul Global  
precisa ser, simultaneamente, uma pedagogia da denúncia e uma pedagogia do inédito viável. A  
formação docente, no Brasil e na Argentina, precisa incorporar formalmente, em seus currículos, o  
letramento crítico em IA generativa e acessibilidade. As agências de financiamento, os ministérios da  
educação e os conselhos de classe profissional precisam levar a sério a centralidade dos sujeitos surdos  
e dos falantes de línguas de sinais nos debates sobre IA na educação.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
Este ensaio teórico-crítico propôs articular o pensamento freireano do compromisso social, a  
crítica algorítmica contemporânea e a renovação pós-humanista em um framework conceitual original,  
o PHARE, com cinco princípios orientadores: dialogicidade algorítmica, transparência epistêmica,  
agência distribuída, compromisso decolonial e horizonte emancipatório com acessibilidade radical. A  
pergunta de pesquisa indagava se era possível costurar essas três tradições em um arcabouço unificado  
capaz de transcender o falso dilema entre tecnofobia e tecnoeuforia e oferecer princípios prescritivos  
para a docência ibero-americana, com atenção explícita aos corpos historicamente marginalizados pelo  
fonocentrismo algorítmico. A resposta, apresentada nas seções de Fundamentação Teórica e de  
Resultados e Discussão, é positiva.  
Os achados teóricos podem ser sintetizados em cinco proposições. Primeira: a IAG não é  
tecnologia neutra, mas configuração técnico-política que opera por extração de dados, concentração  
corporativa e reprodução estrutural de hierarquias coloniais, raciais, de gênero e linguísticas. Segunda:  
a tradição freireana oferece, com as categorias de dialogicidade, conscientização, situação-limite e  
inédito viável, o vocabulário mais preciso para pensar criticamente a IAG na América Latina. Terceira:  
a renovação pós-humanista oferece categorias indispensáveis para enfrentar a especificidade ontológica  
da IAG como mediação coprodutora de subjetividade. Quarta: a figura conceitual da assemblagem  
surdo-ciborgue situa o corpo surdo como laboratório privilegiado da ética pós-humanista educativa.  
Quinta: o framework PHARE oferece um instrumento operatório para a formação docente e para a  
prática pedagógica no espaço ibero-americano.  
As contribuições teóricas do estudo são triplas. Para a pesquisa educacional, adensa o debate  
latino-americano com uma síntese explicitamente situada que recusa o papel de mero importador de  
categorias produzidas no Norte. Para a formação docente, oferece uma estrutura prescritiva passível  
de incorporação em programas iniciais e continuados. Para a educação inclusiva, recoloca a  
centralidade dos sujeitos surdos em um debate que tem sido conduzido como se a humanidade abstrata  
da IAG fosse universal. Para o professor da educação básica, o PHARE oferece quatro perguntas  
operativas: o sistema permite dialogicidade efetiva? Permite interrogação sobre suas condições de  
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produção? Reconhece a coautoria humano-máquina? Honra o compromisso decolonial e a  
acessibilidade radical?  
Os limites do estudo são internos ao gênero ensaístico. O ensaio teórico-crítico opera por  
aprofundamento conceitual, não por verificação empírica. O framework PHARE oferece-se como  
hipótese teórica orientadora cuja confirmação ou refinamento depende de pesquisas empíricas  
subsequentes. Recomenda-se, em pesquisas futuras: operacionalização empírica do framework em  
estudos de caso de formação docente no Brasil e na Argentina; realização de revisões sistemáticas de  
escopo sobre a literatura ibero-americana relativa a IAG e acessibilidade; pesquisas participativas com  
comunidades surdas brasileiras e argentinas; articulação interinstitucional entre universidades públicas  
brasileiras e argentinas para construção de modelos abertos de IAG treinados em corpora regionais; e  
que as agências de fomento incorporem linhas específicas para a pesquisa crítica em IA, educação e  
compromisso social.  
A modo de fechamento reflexivo, vale retomar a formulação que dá título ao dossiê: entre  
algoritmos e humanismo. A preposição entre não nomeia, neste ensaio, uma zona neutra de equilíbrio.  
Nomeia um terreno de disputa pedagógica, ética e política, no qual o ato de educar, na era da IAG, é  
simultaneamente o ato de denunciar as configurações coloniais da técnica e o ato de inventar, com  
inédita ousadia freireana, modos de apropriação capazes de honrar o compromisso histórico da  
educação ibero-americana com os povos, com as línguas e com os corpos que sempre habitaram o  
entre, o intervalo, a fronteira. A pedagogia que se desenha não é a de uma máquina que substitui o  
humano; é a de um humano que, ciborgue desde sempre, reabre, em cada interação algorítmica, a  
pergunta freireana fundamental: educar para quê, com quem, em favor de quem?  
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Submetido em abril de 2026  
Aprovado em julho de 2026  
Informações do (a) (s) autor(a)(es)  
Nome: Bruno José Betti Galasso  
Grau de escolaridade: Doutor em Educação (Universidade de São Paulo)  
Afiliação institucional: Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).  
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