As crenças pedagógicas constituem estruturas cognitivas e afetivas que orientam as decisões
e práticas dos professores, operando como matrizes interpretativas que organizam a experiência
docente em contextos educativos complexos. Tais estruturas são produzidas ao longo de trajetórias
formativas e profissionais, sendo atravessadas por vivências escolares, referenciais teóricos e condições
institucionais que configuram modos específicos de compreender o ensino e a aprendizagem (Pajares,
2019; Fives; Gill, 2018). A ação pedagógica, nesse sentido, não se reduz à aplicação de métodos ou
técnicas, mas envolve processos interpretativos nos quais os docentes atribuem significados às
situações educativas, tomando decisões que refletem suas concepções sobre conhecimento, sujeito e
educação.
No contexto da alfabetização, as crenças pedagógicas assumem papel estruturante,
especialmente diante das transformações tecnológicas que reconfiguram os processos de ensino e
aprendizagem. Concepções que associam aprendizagem à transmissão linear de conteúdos tendem a
orientar práticas nas quais as tecnologias são utilizadas como instrumentos de reforço de modelos
tradicionais, limitando seu potencial de inovação (Ertmer; Ottenbreit-Leftwich, 2019). Perspectivas
que valorizam a construção ativa do conhecimento, por sua vez, favorecem a incorporação de recursos
digitais em práticas mais abertas, colaborativas e contextualizadas. A relação entre crença e prática
revela-se, portanto, como eixo central para compreender as formas de apropriação das tecnologias no
cotidiano escolar.
A dinamicidade das crenças pedagógicas constitui aspecto fundamental para a análise das
práticas docentes, uma vez que tais estruturas não permanecem estáticas ao longo do tempo. Processos
de formação continuada, experiências de ensino e interações em comunidades profissionais produzem
deslocamentos que podem ampliar a capacidade reflexiva dos professores (Nóvoa, 2019; Darling-
Hammond et al., 2020). A aprendizagem profissional emerge como processo contínuo, no qual os
docentes reelaboram suas concepções à luz de novas experiências e conhecimentos. A transformação
das crenças, nesse contexto, envolve não apenas a aquisição de informações, mas a reconstrução de
sentidos que orientam a ação pedagógica.
A permanência de modelos tradicionais no interior das práticas educativas evidencia a força das
dimensões subjetivas que estruturam a docência. A resistência à inovação manifesta-se como
fenômeno complexo, relacionado a processos identitários e a conflitos epistemológicos que atravessam
a profissão docente (Kelchtermans, 2019). A incorporação de tecnologias pode ser percebida como
ameaça a concepções consolidadas de ensino, gerando tensões que dificultam a adoção de práticas
inovadoras. A análise dessas resistências requer uma abordagem que considere as dimensões simbólicas
e afetivas implicadas na construção das identidades profissionais.
Uma compreensão aprofundada das crenças pedagógicas exige o reconhecimento de sua
dimensão política, na medida em que orientam escolhas curriculares, metodológicas e avaliativas que
impactam diretamente os processos de alfabetização. Decisões relacionadas ao que ensinar, como
ensinar e como avaliar são atravessadas por concepções que refletem visões de mundo e projetos de
sociedade (Giroux, 2020; Apple, 2019). A prática docente configura-se, assim, como espaço de disputa
simbólica, no qual diferentes concepções de educação se confrontam e se materializam em ações
concretas. A análise das crenças permite evidenciar as bases ideológicas que sustentam as práticas
pedagógicas.
Tendo uma abordagem sistêmica permite compreender que as crenças pedagógicas são
constituídas em interação com contextos institucionais e culturais mais amplos. Políticas educacionais,
discursos acadêmicos e demandas sociais influenciam a formação dessas crenças, configurando um
campo de forças no qual os docentes constroem suas práticas (Biesta, 2020; Ball, 2021). A ação
pedagógica emerge como resultado de múltiplas determinações, envolvendo tanto dimensões
individuais quanto coletivas. A compreensão dessa complexidade é fundamental para a elaboração de
estratégias que promovam mudanças significativas nas práticas educativas.
A relação entre crenças e tecnologias revela a necessidade de considerar os processos de
subjetivação que atravessam a docência contemporânea. A interação com dispositivos digitais não se
limita à dimensão técnica, envolvendo transformações nas formas de pensar, sentir e agir dos
professores (Han, 2019; Selwyn, 2020). A incorporação das tecnologias implica a construção de novos
sentidos para a prática pedagógica, exigindo a reconfiguração das crenças que orientam o ensino. A
Revista Científica Educ@ção v.12● n.18● edição especial/2026.